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postado sob cultura, esporte, história
foto: divulgação
Rafaela Silva vence a final e leva a medalha de ouro no Judô, na Olimpíada Rio 2016

 

Se hoje, na Olimpíada Rio 2016, estão tendo bastante destaque e representam aproximadamente 45% dos atletas, as mulheres lutaram muito para chegar  a essa posição, enfrentando dificuldades - até hoje, inclusive - no mercado de trabalho convencional: a inclusão das mulheres nos Jogos Olímpicos foi uma conquista gradual, resultado de seu novo posicionamento na nova sociedade industrializada da segunda metade do século 19 e do decorrer do século 20. 

Os Jogos Olímpicos da Antiguidade 

Na Grécia Antiga, em Atenas, as mulheres tinham que andar cobertas dos pés à cabeça para não serem vistas, e não podiam participar de competições esportivas para não exporem seu corpo que, acreditava-se, devia ser reservado para a maternidade. Porém, na mesma época, os Jogos da Deusa Hera, cujos primeiros registros datam de 200 a.C. incluíam  atletas jovens e solteiras em competições a cada quatro anos, mas não conferiam a elas o status de heroínas, porque essas competições eram mais simples, não exigindo o mesmo preparo físico que os atletas masculinos, portanto elas não preencheriam os requisitos dos heróis olímpicos pelo tamanho corporal, força física, habilidades e técnicas.

O primeiro registro dos Jogos Olímpicos da Antiguidade – que eram em honra a Zeus - data de 776 a.C. Somente homens podiam competir, e as mulheres casadas eram terminantemente proibidas até mesmo de assistir, já algumas solteiras, em busca de marido, podiam ser espectadoras. 
Por outro lado, existe a hipótese de que a proibição da presença passivo-ativa feminina nas chamadas Panaceias (primeiros eventos esportivos do planeta, eram organizados a cada quatro anos para que os competidores se reunissem e celebrassem os Deuses) tivesse perfil político: para os gregos, apenas os cidadãos tinham direito à vida pública - como participar de eventos esportivos ou assistir a eles - e, para ser um cidadão grego era necessário, entre outros quesitos, guerrear; como as mulheres não desempenhavam essa função, sua participação aos jogos era vetada, restando-lhes naquela sociedade o direito de serem mães.


Já em Esparta, a vida era diferente da vida de Atenas: homens e mulheres recebiam a mesma educação. E esse modelo conferiu às espartanas características distintas: eram audazes, realizadoras, mais autoritárias e independentes, ou seja, qualidades necessárias para mulheres que permaneciam longos períodos sem a presença do marido, que precisava se dedicar ao exército.É interessante observar que as primeiras mulheres atletas vieram de Esparta, particularmente porque os espartanos acreditavam que as mulheres que eram saudáveis tinham condicionamento físico e se exercitavam regularmente teriam filhos saudáveis.


Participação das mulheres nos Jogos Olímpicos e Jogos Heranos
A primeira mulher que triunfou nos Jogos Olímpicos antigos foi a princesa espartana Kyniska. Ela não competiu, mas era a criadora dos cavalos de raça que foram vencedores nos Jogos de 396 a.C. e de 392 a.C.


Os Jogos Olímpicos da Antiguidade duraram 12 séculos, até serem abolidos, em 393, pelo imperador romano cristão Teodósio II, devido ao mau relacionamento entre gregos e romanos, à brutalidade e corrupção que reinava durante os Jogos, mas também porque ele acreditava que tais festivais eram pagãos. Alguns anos mais tarde, o estádio de Olímpia, onde aconteciam as competições, foi arrasado e os campos olímpicos destruídos. 

O Renascimento dos Jogos: tradição mantida 

Durante a Idade Média, os eventos públicos ainda eram apenas para os homens, porém as mulheres participavam de jogos com bolas. A partir do século XII, época do Feudalismo marcada pelas Cruzadas promovidas pela Igreja Católica, a mulher nobre desenvolveu várias habilidades como ler, escrever, caçar com falcões, jogar xadrez, contar estórias, responder questões com sagacidade, cantar, tocar instrumentos e dançar, apesar de ainda subjugada pelo marido ou, quando solteira, pelo parente homem próximo. Todas elas, nobres ou não, eram excluídas das atividades de lazer e esportivas.

No final do século XVIII e início do XIX, os cavalheiros ingleses levavam suas esposas para assistirem a torneios de boxe e corridas de cavalos, entre outros eventos. As mulheres praticavam boliche, cricket, bilhar, arco e flecha, jogos rudimentares de futebol e atividades na neve

As Olimpíadas ficaram desaparecidas por quase mil anos, até que alguns aficionados pelos Jogos Olímpicos da Antiguidade resolveramreavivá-las, nos séculos 18 e 19, em vários países europeus. Alguns desses empreendimentos foram bem sucedidos, outros não. 

Os Jogos Olímpicos da Modernidade

Em 1881, Ernst Curtius, um arqueólogo alemão que dirigia um grupo de pesquisa, descobriu as ruínas do estádio de Olímpia. Essa descoberta foi um dos fatores que evocaram no barão Pierre de Coubertin um interesse especial nos Festivais Olímpicos do passado, a ponto de, em 1892, ele propor um festival esportivo internacional que foi inicialmente mal recebido. 

Depois de anos defendendo essa ideia, em 1894, falando na Sorbonne, em Paris, num encontro com representantes de nove países, incluindo os Estados Unidos e a Rússia, ele argumentou e propôs o renascimento dos Jogos Olímpicos numa escala internacional. Com a aprovação dos ouvintes, ele fundou o Comitê Olímpico Internacional (COI) para organizar os Jogos Olímpicos e elaborar as regras para os eventos . 

A primeira Olimpíada moderna ocorre em Atenas, em 1896, por decisão de Coubertin, e vetou-se a participação feminina. Mas a grega Stamata Revithi desrespeitou a decisão e decidiu correr o percurso de 42 km da maratona, um dia depois da prova oficial masculina. Terminou quatro horas e meia depois da largada e este ato provocou o início da inserção feminina nos Jogos Olímpicos. 

Como consequência, as mulheres começaram a marcar presença olímpica oficialmente em Paris-1900, mesmo contra a vontade do Barão de Coubertin e ainda com pouca expressão numérica: Eram 22 mulheres e 997 homens, competindo em cinco esportes - tênis, vela, críquete, hipismo e golfe. A tenista britânica Charlotte Cooper deixou a sua marca, ao ganhar, nesta edição, o primeiro ouro olímpico feminino da história.
Elas usavam vestido com anáguas, meias com cinta-liga e chapéus, para competir no tênis, no golfe e no críquete, esportes liberados por serem mais bonitos e não exigirem contato físico.

Na edição seguinte, 1904, em Saint Louis, nos Estados Unidos, o número de mulheres diminuiria bastante: apenas 6 para 645 homens. Nos anos seguintes, 1908 e 1912, a média de mulheres aumentaria novamente: pouco mais de 30, 40 participantes para uma média de 2 mil homens. 

Os Jogos Olímpicos ficaram suspensos por oito anos devido à I Guerra Mundial. Em 1920, as Olimpíadas de Antuérpia, na Bélgica, marcaram o retorno dos Jogos e também a estreia do Brasil, mas ainda sem representantes femininas brasileiras. 
Nosso país teve sua primeira participação em 1920, mas apenas em 1932 uma mulher, a nadadora Maria Lenk, comporia sua delegação. Ela representou não apenas a primeira mulher brasileira, mas a primeira mulher sul-americana a participar de uma Olimpíada. Maria Lenk não conseguiu medalhas, mas sua participação em várias edições do evento foi memorável, e nas preparações para as Olimpíadas de 1940 quebraria recordes mundiais. Infelizmente, em razão da II Guerra Mundial, as Olimpíadas de 1940 foram canceladas.  

O patrocínio sempre foi um fator decisivo para a participação da mulher atleta nos Jogos Olímpicos e as mulheres tiveram dificuldades até ganhar credibilidade e romper a barreira machista dos comitês locais e de patrocinadores. As viagens eram proibitivas para as mulheres antes de conquistar patrocinadores, uma vez que, mesmo quando tinham um trabalho fora de casa, ganhavam menos do que os homens, não podendo arcar com as viagens.  A expressividade de sua participação ocorreu, enfim, apenas a partir da década de 80. 
A primeira medalha feminina só veio para o Brasil em Atlanta -1996, quando foi introduzido a categoria vôlei de praia. Jaqueline Silva e Sandra Pires ganharam a medalha de ouro, numa final inédita entre duplas brasileiras. E foi apenas em 2008 que veio a primeira medalha de ouro feminina em prova individual, conquistada por Maureen Maggi, no salto em distância. 

No século XXI, nota-se que as mulheres têm participação muito próxima da masculina nos Jogos Olímpicos, rompendo longo processo de discriminação pelos homens. A grande diferença porcentual entre atletas masculinos e femininos foi reduzida neste século, como resultado da evolução social, e hoje elas representam quase a metade do número total de atletas nas competições, obtendo resultados importantíssimos e ganhando respeitabilidade.


Veja os dez momentos inesquecíveis protagonizados pelas mulheres nos Jogos Olímpicos  (por rio2016.com)

1.  As mulheres participaram pela primeira vez dos Jogos em Paris - 1900, quatro anos depois dos homens, com 22 atletas competindo em cinco esportes: tênis, vela, críquete, hipismo e golfe. A tenista britânica Charlotte Cooper deixou a sua marca ao ganhar, nesta edição, o primeiro ouro olímpico feminino da História

Charlotte Cooper (Foto: COI)

 

2.  Em Tóquio -1964, a ginasta ucraniana Larisa Latynina subiu pela 18ª vez ao pódio - marca que lhe rende, até hoje, o título de maior medalhista olímpica entre as mulheres. Foram nove ouros no total.

Larisa Latynina, ao centro (Foto: COI)

 

3.  Nos Jogos Cidade do México - 1968, foi a vez de a velocista mexicana Enriqueta Basilio fazer história como a primeira mulher a acender a pira olímpica, na cerimônia de abertura dos Jogos.

Enriqueta Basilio (Foto: COI)

 

4. O hipismo é o único esporte olímpico em que as mulheres competem diretamente com os homens por medalhas. Em Munique - 1972, a alemã Liselott Linsenhoff tornou-se a primeira mulher a vencer uma prova contra os homens, na competição de adestramento.

Liselott Linsenhoff , à direita (Foto: COI)

 

5. Aos 14 anos, a romena Nadia Comaneci alcançou uma conquista inédita nos Jogos Montreal – 1976: a primeira apresentação perfeita de ginástica artística, recebendo nota 10 de todos os jurados nas barras assimétricas. O feito foi tão surpreendente, que o placar não estava preparado para exibir todos os dígitos da nota - no lugar de 10,00, apareceu 1,00.

Nadia Comaneci (Foto: Getty Images)

 

6.  Em Los Angeles - 1984, a marroquina Nawal El Moutawakel tornou-se a primeira mulher africana e muçulmana campeã olímpica da História, após vencer a prova dos 400m com barreiras. Para homenageá-la, o rei do Marrocos decretou que todas as meninas nascidas naquela data seriam batizadas com seu nome. Atualmente, Nawal é presidente da Comissão de Coordenação do COI para os Jogos Rio - 2016.

Nawal El Moutawakel (Foto: Getty Images/ Tony Duffy)

 

7.  No mesmo ano, a arqueira neozelandesa Neroli Fairhall ficou mundialmente conhecida como a primeira atleta paraplégica a participar dos Jogos Olímpicos.

Neroli Fairhall (Foto: COI)

 

8. Já para o Brasil, a primeira medalha olímpica feminina veio em forma de dobradinha nos Jogos Atlanta – 1996: Sandra Pires e Jacqueline Silva subiram ao topo do pódio após vencer a final contra outra dupla brasileira - Mônica Rodrigues e Adriana Samuel - no vôlei de praia, garantindo-se, assim, ouro e prata para o país. 

Sandra Pires e Jaqueline Silva (Foto: Getty Images/Doug Pensinger)

 

9. As mulheres estrearam nos ringues de boxe, em Londres - 2012, quando a britânica Nicola Adams tornou-se a primeira campeã olímpica do esporte, ao vencer a chinesa Ren Cancan na final da categoria até 51 kg. Ganhou status de heroína nacional.

Nicola Adams, à esquerda (Foto: Getty Images / Scott Heavey)

 

10. Também em Londres - 2012, uma chinesa de 16 anos roubou a cena na natação. Além de quebrar o recorde mundial nos 400m medley feminino, Ye Shiwen surpreendeu o mundo ao nadar os 50 metros finais mais rápido que o astro norte-americano Ryan Lochte, campeão na mesma prova. Foram 17 centésimos de diferença.

Ye Shiwen, à direita (Foto: Getty Images/Clive Rose)
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